terça-feira, 27 de março de 2018

O mundo era perfeito

Quando eu era criança, eu achava que o mundo era perfeito. Não que eu tivesse nascido em berço de ouro, muito pelo contrário. E nem que eu tivesse saúde perfeita, que também não era o caso. Não estou dizendo que eu achava o mundo perfeito por que perfeita era minha vida, como se poderia imaginar. Mas eu achava que o mundo era perfeito porque ele funcionava -- assim eu supunha -- tal como deveria: de forma justa e eficiente.

Eu achava que o crime não compensa. O vilão, como nos filmes, era sempre pego no final do último capítulo, quando todas as tramas se desfazem, quando os mocinhos provam sua inocência, os verdadeiros culpados são algemados e vão para a cadeia, para nunca mais saírem. No fim, tudo aquilo que você torcia durante o filme todo virava realidade.

Eu achava que uma consulta médica poderia ser com qualquer médico. Afinal, todos sabiam a mesma coisa. Se não tinham estudado na mesma escola de medicina, usaram pelo menos o mesmo livro, como minha prima e eu, que usávamos o mesmo livro de português e matemática mas em escolas bem longe uma da outra (para meus padrões da época, pois eram em bairros diferentes). Eu imaginava que todo médico tinha uma grande tabela de duas colunas na cabeça: na primeira, os sintomas; na segunda, o que receitar -- e que funcionava! Era uma lista longa, que catalogava todas as possíveis doenças, sem deixar nada de fora. Esta tabela havia de ser universal, todos eles a sabiam de trás para frente, mais ou menos no espírito das tabuadas que eu era obrigado a decorar. Erro médico era uma coisa inconcebível para mim.

Eu tinha certeza que o presidente de uma empresa sabia de tudo o que se passava na empresa dele, 24 horas por dia, 7 dias por semana. Ele sabia o nome de todos os funcionários, sabia de todos os problemas. Ele pessoalmente cuidava de supervisionar todos os detalhes da produção, de revisar todos os rótulos, todos os manuais. Ele tirava um dia da semana só para escutar todas as ligações feitas para o teleatendimento. Ele era uma espécie de divindade corporativa, que tudo sabia, tudo elucidava, tudo via, e fazia uso deste poder com um único objetivo: fazer o melhor produto do mundo para seus consumidores. De todos os presidentes, eu sonhava em conhecer o presidente do Toddyinho (como eu gostava daquilo...)

Eu tinha certeza que nunca ia deixar de brincar de pique. Qualquer um: pique-pega, pique-bandeira, pique-esconde, pique-parede, pique-cola-três-vezes, .... Eu brincava disto o tempo todo. Um dia, todos os meus amigos e eu juramos que continuaríamos brincando de pique quando a gente crescesse. Quando tivéssemos filhos, eles também entrariam na brincadeira (mas seriam "café-com-leite", como chamávamos aqueles que queriam entrar no pique mas ainda estavam num estágio iniciante da arte de não ser pego). Como a gente teria muito dinheiro (ninguém se imaginava pagando as prestações de casa ou do carro), construiríamos um prédio cheio de passagens secretas e armadilhas, passando o pique de rua para um outro patamar. Nós éramos visionários do conceito atual de "brinquedão", aqueles dos shoppings cheio de túneis, porém incrementados com conceitos importados dos filmes do Indiana Jones.

Para mim, os cientistas tinham respostas para tudo. E quando não tinham, era questão de pensar um pouco e... Eureca! -- já tinham a resposta. Saber toda a Teoria do Universo era questão de tempo, se é que já não a dominavam. Todos eles viviam em laboratórios, cheios de tubos de ensaio, de cabelo despenteado e olhos esbugalhados. Eles eram todos iguais ao Dr. Brow, do "De Volta para o Futuro". Ser cientista era o melhor emprego do mundo!

Eu achava que não havia motivo para se ter fome no mundo, exceto para o jejum do exame de sangue. Que não havia motivo para se faltar trabalho para quem quer trabalhar. Eu não sabia que as guerras ainda aconteciam. Aliás, nem sabia sequer que não houve um ano de trégua na história da humanidade. Eu achava que fazer pessoas de escravos fosse coisa inventada por ancestrais nossos que, por um infeliz fortuito, nasceram mentalmente perturbados e mais fortes do que os outros. Eu achava que as pessoas eram confiáveis e honestas (menos alguns motoristas de Kombi, de quem a minha mãe alertava para não pegar balas se oferecidas). Que tudo que eu emprestasse seria devolvido. Que tudo que eu contasse em segredo, assim ficaria até segunda ordem.

Eu pensava que o amor era uma coisa fácil, quase trivial. Era assim: você gostava dela, ela gostava de você. Você demorava um pouco para falar (pelo menos eu julgava que eu demoraria, devido a minha timidez), mas quando se declarasse, tudo dava certo. Enfim, você descobriria que era recíproco. Vocês se casariam e seriam felizes para sempre. E que isto acontecia o tempo todo, com todo mundo. Por que seria diferente?

Eu já sabia que as pessoas não eram eternas. Mas isto não abalou minha noção de mundo perfeito. Logo cedo, li em algum lugar um texto que comparava a morte a uma grande festa: no início, quando chegamos, estamos empolgados e tudo é descoberta. O meio da festa é o ápice, pois já nos entrosamos com todos e estamos no melhor da brincadeira. No fim, estamos cansados, os calçados machucam o pé, queremos voltar para casa e tomar logo um banho e dormir, e não nos importamos então de ir embora mais cedo, antes de outros que querem aproveitar mais, ou mesmo vendo que há gente nova chegando... o tempo em que estivemos na festa já foi de bom tamanho e, então, nos despedíamos de todos. Era exatamente assim que eu me sentia nas festinhas de aniversário dos meus amigos. E ainda levava para casa no final um pedaço do bolo, um monte de balinhas de açúcar, e um balão para jogar vôlei sozinho em casa no dia seguinte! Esta analogia parecia se encaixar com a noção de justiça que eu tinha do mundo.

Eu achava isso tudo. E continuo, em verdade, achando. Apenas acho de um jeito diferente agora. O que antes era uma convicção ingênua de que este era o estado das coisas, agora deu lugar a uma convicção de que é possível um dia ser assim, e que a evidência para isto é que tudo já foi muito pior, e portanto estamos em processo de contínuo aprimoramento. E acho bom viver pensando desta maneira.

Tocando neste assunto...

Estes dias ouvi uma metáfora, que é mais ou menos assim... um dia, um homem estava com seu filho, precisando trabalhar de casa. Ele ficara com o filho, que não pôde ir à escola por estar febril. Mas a enfermidade não deixava o menino quieto. Muito pelo contrário! Seu pai já não sabia como fazer para trabalhar, sendo interrompido pelo garoto a cada tantos minutos. Perdendo um pouco a paciência, teve uma ideia. Foi ao quarto e retirou da moldura uma tela de um quadro grande pendurada que o garoto vivia tentando pegar, de uma imagem de um mapa-múndi. O pai tomou uma tesoura e cortou o mapa em pedacinhos. Voltou a sala e disse ao menino que ficasse ali, quieto, brincando de montar o quebra-cabeça improvisado. Disse para voltar ao escritório do papai somente quando terminasse de montar o mapa. O menino adorou, e prontamente se pôs a tentar resolver o quebra-cabeça.

O pai pensou que foi uma ótima ideia. Afinal, o garoto era muito novo e não conhecia o desenho do mapa-múndi. Fatalmente, isto distrairia o garoto o dia inteiro, de modo que o pai cumpriria o prometido no trabalho. Todo mundo que já tentou montar um quebra-cabeça de razoável tamanho sabe que, sem saber exatamente como deve ser a imagem final, a tarefa se torna muito mais difícil. Pasmo ficou o pai depois que, dentro de poucos minutos, o filho retornou e disse: "Acabei!".

O pai não acreditou. Correu à sala, e de fato, lá estava o mapa montado. "Mas como?!", indagou o pai ao garoto, que lhe respondeu com um sorriso de canto: "Simples! Eu reparei que atrás do mapa havia um desenho de um rosto grande de um homem. Assim, pensei em resolver o quebra-cabeça não tentando montar o mapa, mas tentando montar a imagem do homem, com as peças viradas. Quando terminei de consertar o homem, olhei para o mundo e vi que ele tinha ficado perfeito!"



terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Você voltaria a confiar em alguém assim?

Você voltaria a confiar em alguém que lhe mentiu durante tantos anos?

Alguém que você nunca duvidou, cuja veracidade de todas as estórias contadas eram assumidas sem maiores questionamentos -- e, agora, descobertas não passarem de farsas?

Voltaria a confiar em alguém que sempre lhe exigiu a verdade, acompanhada invariavelmente da explicação de se tratar de virtude das mais importantes, seja ela qual for, a quem doer e quais forem as consequências, mas que agora não parece ter muito valor, tendo em vista os anos de estórias fantasiosas contadas premeditadamente e sem sinais de remorso?

Você voltaria a confiar neste alguém.... ou mais especificamente.... em mim!... meu filho, minha filha?!

Sim... fui eu quem lhe deixei aquela bicicleta na sala, ou aquela casinha de bonecas, ou aquele patinete, ou aquele vídeo-game, ou aquele jogo de tabuleiro, ou aquele... Sim, confesso! Fui eu!... Nem vou tentar amenizar minha situação mencionando que a mamãe ajudou (não só ajudou a planejar, mas a comprar também -- vou parar por aqui; eu disse que não tentaria me isentar da responsabilidade).

Não.... não houve velhinho de barba branca... (Embora, neste aspecto, é questão de pouco tempo até que isto se torne realidade...)

Não havia ninguém entrando pela nossa varanda de madrugada... (E vocês ainda preocupados do trabalho que ele tinha para tirar e colocar a rede de proteção!)

Não havia economia nenhuma que vocês faziam ao dizer publicamente que preferiam deixar os presentes caros para "ele" e pedir outros mais em conta para os pais... (Ó, culpa minha!)

Espero que um dia, quando crescerem e terem seus próprios filhos, possam me entender. Vão saber que tudo que foi feito foi por amor a vocês (embora eu não saiba explicar muito bem onde entra o amor aí), com muita dedicação (ah, isto sim!) e com a melhor das intenções (existe uma máxima sobre a questão da "melhor das intenções"... ignorem-na).

E antes de passarem pela cabeça de vocês me perdoarem, gostaria de confessar só mais uma coisa... lembram-se daquelas pegadinhas de canetinha no chão da cozinha até o armário, onde fica cheio de chocolate em certa época do ano? Pois é...

Tocando neste assunto...

Pessoalmente, meus pais não fizeram questão que eu acreditasse nestas lendas. Nunca me passou pela cabeça querer ter tido a chance de acreditar. Por outro lado, estes dias ouvi um psicólogo dizendo na TV que em 30 anos de profissão, ninguém nunca deitou eu seu divã para resolver qualquer conflito interno deixado pela crença nestas estórias, de modo que acho que a matéria de fazer ou não os filhos acreditarem fica sob júdice de cada pai e mãe. Mas sempre que considerei a questão se eu faria o mesmo com meus filhos, a reflexão acima me ocorria.

Mesmo se porventura eu quisesse acreditar, influenciado pelas estórias que os pais de meus amigos da rua contavam, meus pais não deram a menor chance para que isto pudesse de fato ocorrer. Quando eu ganhei de Natal um ventilador, definitivamente veio a convicção de que não existia ninguém lendo minhas cartinhas deixadas no posto de coleta dos Correios da escola.

Um feliz 2017 a todos! Ho-ho-ho!

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Brincadeiras de infância


Meus filhos vivem em cidade grande. Como uma grande parte da população, vivem em apartamento. Normalmente, portanto, brincam no playground. Brincar na rua é impossível dado o movimento e jamais deve ter passado pela cabeça deles que isto é uma opção. Mas o que eles não sabem é que toda vez que os vejo brincando, fico entristecido de não poder dar a eles a oportunidade que eu tive de brincar na rua. Que divertido era!

Claro, estou falando de uma rua tranquila, arborizada, que quase não se passava carros e, quando passava, eram dos próprios moradores. Brincávamos de pique-X (onde X aqui é um variável que assume praticamente qualquer substantivo, como por exemplo, bandeira, pega, pega-três-vezes, ladrão, cola, garrafão, etc.), desenhávamos no chão com fragmentos de tijolos das casas vizinhas em construção, trepávamos em árvores, acendíamos fogueira para esquentar batata-doce a noite, pintávamos as ruas em época de Copa do Mundo, andávamos de bicicleta em volta do quarteirão, e muitas outras brincadeiras que nem sei se existem mais. Particionávamos os nossos amigos forasteiros como aqueles da "rua de cima" ou  da "rua de baixo". Jogávamos bolas de gude. Ficávamos até tarde conversando em rodinha na rua. Íamos para escola em comboio de alunos, onde o que morava mais longe ia peregrinando de casa em casa, num itinerário firmado entre as próprias crianças. E tem muito mais coisas que estou esquecendo agora de contar.

Tocando neste assunto...

Será que meu pai pensava o mesmo em relação a mim e à roça onde ele nasceu? "Rua é inseguro, passa carro, lugar bom mesmo é na roça, lugar que se anda sem preocupação!", deveria ele pensar, por exemplo, sem nunca ter me dito. "Pena que hoje preciso trabalhar numa indústria para ter uma condição melhor e isto me obriga a morar numa casa na cidade.". Indo mais além, será que o tataravô do meu avó também pensava: "Puxa, meu filho crescendo nos burgos... lugar aberto, sem segurança, gente de tudo quanto é lugar.... bom mesmo era no Feudo, com aquelas muralhas em volta, com proteção do Monarca, só uma ponte de entrada e saída, segurança total....". Enfim, acho que isto faz parte de toda geração.

Filhos: pelo sim pelo não, qualquer dia a gente brinca de pique-pega na Rio Branco ou na Presidente Vargas. Vocês vão ver, muito maneiro.


quarta-feira, 22 de maio de 2013

O cheque sumiu!

Já deve ter lhe acontecido alguma vez: você jura que deixou aquilo que procura em cima da mesa. Todo mundo diz que não viu. Você esbraveja: "Quem pegou?" "Não é possível que o negócio criou pernas e saiu daqui sozinho!" "Tenho certeza de que deixei ele bem aqui, neste lugar!" "É só eu deixar as coisas aqui que elas somem!". E quando as suas reclamações estão no ápice, com você já incriminando desde a empregada até a sua mãe que vive mexendo nas suas coisas, você acha o negócio em outro lugar. E só aí se lembra que, de fato, foi você quem deixou ele lá.

Por que será que isto é tão comum? A minha teoria é a seguinte: como na sua cabeça você de fato intencionava deixar algo ali, naquele lugar, o ato de distração que o fez colocá-lo num lugar diferente resulta na conclusão de que, como aquilo sumiu da sua mão, é porque você já colocou ele lá no lugar planejado. Afinal, como você não tinha intenção de deixá-lo em nenhum outro lugar, ele só pode estar lá. 

A impressão de estar correto é tão grande que a gente se esquece de que a nossa memória pode nos pregar peças às vezes. Portanto, é necessário seguir a regra do polegar: a certeza acerca do paradeiro de alguma coisa não é suficiente; faz-se necessário uma certeza absoluta.

Tocando neste assunto...

Meu avô certa vez me contou a seguinte estória:

"Quando meu pai era rapaz, ele trabalhava na fazenda de uma senhora que era viúva de um importante fazendeiro da região. Um dia, a senhora deu falta de um cheque que guardava de uma venda importante de gado que havia feito. A quantia era significativa!

A senhora, depois de procurar e perguntar aos parentes e empregados, desesperou-se com a perda. Tudo indicava que alguém havia furtado o dinheiro. Os filhos da senhora desconfiaram de um dos empregados da fazenda, que foi interrogado pelos filhos. Contudo, o empregado manteve a posição de que não nada sabia e nem dava sinais de que falaria algo de esclarecedor. Os filhos, num gesto à margem da lei, começaram a usar de força física para que o empregado contasse a verdade. Depois de algum tempo, ele admite ter roubado o cheque e diz que vai mostrar o lugar onde o tinha escondido.

Após a verificação do local descrito onde o cheque havia sido deixado, nada foi encontrado. Sob novo interrogatório, os mal tratos continuam até que um segundo lugar é descrito. Novamente, nada encontrado. Após uma certa quantidade de buscas guiadas por falsas declarações, o empregado morreu.... de tanto apanhar.

Muitos anos depois, a mulher decidiu que gostaria de vender a fazenda e sair daquele local. Para se despedir da casa onde vivera décadas com o marido, a viúva passa em cada cômodo da casa relembrando os velhos momentos. Passa pela varanda, cozinha, sala, mas é no escritório que ela fica mais tempo, para folhear os seus livros prediletos -- hábito também compartilhado pelo falecido marido.

Depois de um tempo, ouve-se um barulho e todos correm para ver o que era. Era a senhora, que acabara de cair da escada e estava espatifada no chão, inconsciente. Os filhos tentam reanimá-la, mas em vão. A senhora, na verdade, havia morrido."

"Morrido de quê, vovô?", pegunto. "Da queda?"

"Provavelmente. E mais provável ainda era a causa: em sua mão, estava um livro. Dento deste livro, havia um cheque, caprichosamente guardado entre as páginas grudadas do livro -- o cheque, que a mulher responsabilizou o empregado de furto. Ela o teria encontrado folheando as páginas de seu livro preferido. O susto da lembrança de que ela o teria escondido ali foi tanto que a fez perder o equilíbrio e cair."




quarta-feira, 15 de maio de 2013

Fique com meu livro que tomou emprestado, é presente

Dias atrás fiquei chocado com a notícia de que um amigo que há muito não via faleceu por motivo de doença. Novo, antes dos quarenta. Deixou esposa e três filhos adolescentes. Isto do ponto de vista tangível. No campo dos intangíveis, deixou provavelmente muito mais: sonhos não realizados, planos inacabados, uma dor sem tamanho no coração dos entes queridos, uma saudade indescritível para esposa e filhos, quem vão ainda chorar muito tempo a ausência dele.

Não há palavras para lamentar o caso. Se há, eu as desconheço. Só desejo que a família se recupere logo e que a felicidade não se ofusque. Ele não iria querer isso.

Tocando neste assunto...

Hoje organizando a estante do escritório, deparei-me com um livro que tomei emprestado há (contando mentalmente agora quanto tempo faz, espanto:) doze anos e que nunca devolvi. Vergonha dupla. Não somente pelo ato em si, como pela impossibilidade de fazê-lo agora, pois o livro em questão era do meu amigo que nos deixou.

A vergonha foi imensa. Mas a sensação de vergonha gradualmente se transformou em algo bom: a constatação de quanto meu amigo foi generoso de deixá-lo comigo por tanto tempo. Se reclamou de mim por tal fato, o fez merecidamente. Se ele a partir de algum tempo assumiu que o empréstimo virou presente, quero compartilhar que o presente foi bem-vindo: de vez em quando agora, vou me lembrar da pessoa bem-humorada e disposta para a vida que ele foi ao passar o olho pela capa deste livro, procurando alguma coisa na estante do escritório.

Eu costumava a reclamar de quem pegava um livro meu emprestado e não devolvia. Nunca mais faço isso. Aliás, pelo contrário: se você tem um livro meu com você, pode ficar com ele.




sábado, 13 de outubro de 2012

O estranho caso do pote na geladeira

Hoje aconteceu mais uma vez.

Abri o freezer para pegar a lasanha pronta para o meu jantar, como havia feito no dia anterior. Não me orgulho disso, a propósito. O problema é que quando a minha mulher está viajando a trabalho, são os congelados que me salvam. O microondas, que já era conveniente para esquentar o leite dos filhos, se torna quase que essencial para a minha sobrevivência. Com efeito, excetuando-se o Miojo, acho que tudo mais que eu sei fazer depende dele.

Ao abrir a porta, novamente notei aquele pote misterioso que há meses se encontra debaixo do repositório de gelo. Devido a dificuldade do acesso a este lugar, normalmente colocamos ali somente o que não temos previsão de usar no curto-prazo. Mas já havia muito tempo que via aquele pote ali guardado, e a minha curiosidade de saber o que estava ali dentro começou a ser instigada.

Com muita dificuldade, abri uma fresta da tampa do pote. Mas estava tudo escuro lá dentro, não sendo possível enxergar. Retirei então o pacote de peito de frango e uns pacotes de nuggets do congelador, o que permitiu chegar o vasilhame mais para o lado para ver melhor o conteúdo. Ao abrir mais a tampa, percebi que havia algo preto lá dentro, em quantidade. Mas a tampa não abria o suficiente para identificar o conteúdo propriamente.

O que era aquilo? Feijão congelado?

Se fosse, já deveria estar estragado, por certo! Se há algo pior do que comida estragada na geladeira, é algo estragado no freezer! Retirei mais algumas caixas para tentar abrir mais a tampa e confirmar se aquilo era feijão mesmo. Ao abrir mais um pouco, percebi que aquilo não poderia ser feijão, pois estava aos pedaços e em formato de grandes conchas, como se fossem colheres gigantes de madeira. Ou seriam peças de artigos arqueológicos sendo preservadas?!

Nunca havia entrado algo assim na minha geladeira! O mistério então ficou ainda maior.

Soltei tudo o que estava na minha mão, e retirei finalmente tudo do freezer para ganhar acesso completo ao misterioso pote. Tirei o mesmo da geladeira e coloquei-o em cima da pia. Removi agora totalmente a tampa.

Eram ovos de chocolate!

Agora me lembro: ao abrirmos os montes de ovos que meus filhos ganharam na última Páscoa, deixamos um  par deles na geladeira e os demais escondemos neste pote, para evitar deixar a gurizada se intoxicar com chocolate. Nós então esquecemos do assunto, achando que as crianças não esqueceriam.

Caso encerrado. Como recompensa, sobremesa para meu jantar. 

Tocando neste assunto...

... de estórias misteriosas, eu adorava ler estórias do gênero na minha adolescência. E depois, desafiava meus amigos a desvendar o mistério proposto, refazendo os passos indutivos que os detetives hiper astutos dos livros seguiam! Mas um dia eu me surpreendi com a resposta certeira de um colega:

-- O veneno estava no bolo? -- respondeu meu amigo, verificando a hipótese dele de que o veneno que matara o protagonista da estória que eu acabara de contar estava no bolo que o personagem havia comido no dia anterior à sua morte.

-- Sim! Isso mesmo! Puxa, que perspicácia! Como chegou a esta conclusão?! Quero saber se foi do jeito que o detetive deduziu...

-- Bem, não foi nada difícil. Você chegou para mim logo de início e disse: "Ei, já te contei aquela estória sobre o mistério do veneno no bolo?" Depois de toda a estória, presumo que o veneno só possa estar no bolo! 

Sem querer, eu havia entregado o jogo.

Como me lembrei deste episódio? Bem, é que quando comecei a escrever esta postagem, entitulei a mesma de "O mistério dos Ovos de Chocolate". Felizmente, lembrei deste caso a tempo e vocês leitores não tiveram a mesma sorte que meu amigo. Como se saíram?


sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Reforma das fábulas -- eu apóio!

Tem coisas que não adianta a gente tentar inovar. Em certas áreas, as pessoas acham que não faz nem sentido o termo inovação. E ponto. O simples fato de se tentar discutir se vale a pena tentar algo novo naquela assunto faz com que as pessoas afastem os filhos pequenos de perto, com medo de ser contagioso. A última vez foi quando decidir modernizar a fábula da mentira.

Esta fábula todos conhecem tenho certeza. Diz respeito ao garotinho que vivia a pregar peças nos aldeões dizendo que havia incêndio na floresta perto da vila e depois se divertia vendo os homens carregando baldes e baldes de água no intuito de apagar o fogo fruto tão somente de seu boato. Mas num belo dia, no qual o menino testemunha de fato um incêndio e portanto seu texto se torna uma verdade, ninguém acreditou e a vila foi às cinzas.

Pois bem. Ao contar esta fábula para uma criança, não tenho certeza que ela entenda perfeitamente a moral da estória, pelos seguintes motivos: (i) ela nunca provavelmente viu um incêndio, talvez nem uma fogueira; (ii) talvez não entenda porque tem gente morando perto de florestas (para ela, floresta deve ser um lugar distante, onde as pessoas tem que andar horas de carro para chegar lá), (iii) talvez se pergunte o porquê de não terem ligado para o 193 chamando os bombeiros, ao invés de elas mesmos saírem carregando baldes e baldes de água. Enfim, temo que a falta de aderência da fábula a sua realidade possa prejudicar a completa assimilação do conteúdo. Entendo que do jeito que é contada esta fábula deve ter sido muito útil na Idade Média. mas será que ela atinge seu objetivo no mundo contemporâneo?

A minha proposta de versão, e aquela que acabei contando neste dia, foi sobre um carro mentiroso que cismava de ficar apitando o alarme anti-furto sem mais nem menos, no meio da noite, acordando toda a vizinhança. Quando as pessoas olhavam, não era nada -- só mais uma das peripécias do carro fanfarrão. Mas um dia, o ladrão veio e, enquanto todos ignoravam em suas casas aquela buzina "Pé! Pé! Pé!..." em bom e alto tom (mais alto do que bom), o sortudo do ladrão levou o carro.

Uma vantagem adicional na minha versão é que nela só o dono do carro mentiroso acabou se dando mal no final, o que é merecido por não ter poupado os tímpanos de seus vizinhos por tanto tempo. Sempre achei aquele final no qual todos os inocentes aldeões perdem seus casebres um tanto injusto. (Talvez o problema da versão feudal da fábula vá além de simplesmente não atingir sua mensagem em completude...)

Tocando neste assunto...

Enquanto escrevia este texto, recebo um e-mail sobre os novos relógios de certa marca que são resistente a 200m de profundidade.

Meu amigo fabricante, não daria para sair do modo "50m, 100m, 200m water resistant"? Faça um de resistente a 20cm, que está de muito bom tamanho para mim. E para muita, muita gente.



O mundo era perfeito

Quando eu era criança, eu achava que o mundo era perfeito. Não que eu tivesse nascido em berço de ouro, muito pelo contrário. E nem que eu t...