segunda-feira, 30 de maio de 2011

Bingo!

Era meados de julho de 1988. A minha mãe se preparava no quarto para sair enquanto eu, já pronto, pacientemente a esperava na sala. Era dia de bingo na minha escola, evento em que todas as mães eram literalmente convocadas a irem com seus filhos. O motivo era a festa Julina que estava chegando. Todos os anos, a escola promovia uma série de eventos, na qual o bingo estava incluído, para arrecadar fundos suficientes para uma comemoração de festa Julina. Eu, particularmente, não achava graça no bingo. Mas adorava a festa e, portanto, o bingo era uma chatice necessária. E lá fomos nós.

Após o término do bingo, ao levantarmos todos para irmos embora, as crianças começaram a jogar uns nos outros os grãos de milho que estávamos usando para marcar nas cartelas. Viravam nas mãos o pote com os grãos e jogavam para todo lado. Eu achei o máximo, como qualquer criança (ou, mais precisamente, qualquer menino). Enchi minha mão de milho e, com toda força, VAPT... joguei. Não gosto nem de me lembrar dos momentos que se seguiram.

Infelizmente, a minha rajada de milho encontrou diretamente o olho direito do Rodnei. Após se recuperar do incômodo que aquelas dezenas de grãozinhos de milho lhe trouxeram, ele se virou para mim e, num tom ameaçador, gritou de onde se encontrava, sentado ao lado de sua mãe alguns metros afastado da minha mesa:

-- Rapaz, você não sabe a encrenca em que se meteu. Segunda-feira eu te pego! Na entrada, pois não vou aguentar ter que esperar até chegar o horário da saída!

Rodnei era o mais temido dos garotos da quarta-série. Ele tinha cara de mau, era mais forte que os demais, maior e gostava de brigar na saída. Ele era o tipo de cara que chegava e acabava com a brincadeira da moçada mais nova por puro prazer, só para se sentir o bonzão. Sempre que eu via os filmes do Van Damme, imaginava que o chefão do mau quando criança era como o Rodnei. De sobra, confesso ainda que imaginava que o Van Damme deveria ser, assim, como eu. Embora estivesse muito errado na segunda colocação, na primeira certamente eu estava certo.

O meu melhor amigo na época, que se sentou ao meu lado no bingo, era um dos caras mais fortes da escola. Para terem uma idéia, atualmente ele trabalha como segurança particular, ou algo do ramo. Como meu melhor amigo, logo pensei, talvez ele comprasse a briga e me tirasse desta. Aliviei-me um pouco quando ele rapidamente gritou de volta ao Rodnei:

-- Eu ?!

Foi o que ele disse. Ele estava do meu lado e achou que o Rodnei havia o ameaçado do nada. Não era exatamente o que eu pensei que ele diria.

-- Não -- retrucou Rodnei. Este magrinho que está do seu lado, que me jogou o milho!

-- Ufa! Graças a Deus!, exclamou o meu amigo.

Se ele que era ele havia se sentido aliviado em não ser o objeto da ameaça do Rodnei, era o meu verdadeiro fim.

O fim de semana passou rápido demais. Segunda de manhã, enquanto via minha mãe aprontando as coisas para ela me levar à escola, eu disse a ela:

-- Mãe, estou com dor de garganta.

Plano infalível. Minha mãe nunca me deixava ir na escola com dor de garganta. Tive que gargarejar sal com vinagre o dia todo, mas valeu à pena. Obviamente, não percebi que o plano funcionaria apenas a curto-prazo. Minha mãe logo notou que havia algo de errado com aquela dor de garganta que nunca sarava. Ainda mais quando o médico constatou que não havia nada de errado com a minha garganta.

-- Fabiano, o que está acontecendo? Por que você não quer ir na escola?

Foi aí que eu contei para ela o ocorrido. Ela me repreendeu por não ter contado antes o problema e me disse para eu ficar despreocupado, que ela iria conversar com este tal de Rodnei.

No dia seguinte, chegamos mais cedo ao colégio, para esperar ele chegar. Depois de algum tempo, lá vem ele, descendo a rua do colégio, rodando peão. Enquanto ele se aproximava, não podia deixar de pensar que era questão de tempo até a ponta fina daquele peão estivesse cravada no meu pé. E isto porque eu estava usando Kichute, pois caso contrário, o peão todo deveria atravessar o meu pé. Quando ele se aproximou, acompanhado de sua mãe que o trazia à escola, minha mãe os abordou:

-- Bom dia senhora, a senhora é a mãe do Rodnei?

-- Sim, sou...

-- Eu sou a mãe do Fabiano e aconteceu que na última sexta... -- e contou tudo.

-- Rodnei! - gritou ela com o filho -- você disse que bateria no garoto?

-- Não mãe, foi só na hora que falei isso. Eu não ia fazer isso não!

-- Pois ai de você se a mãe dele me procurar depois dizendo que você encostou o dedo nele. Você vai apanhar de correia!

Minha mãe agradeceu a compreensão da senhora, me deixou no colégio, e entramos para a escola, Rodnei e eu. No início, eu evitava o caminho quando via o Rodnei dentro da escola. Depois, vendo que ele realmente havia se esquecido do incidente, perdi o receio.

Esta estória toda sempre me vem à mente quando ouço casos de barbáries na TV. Logo penso como o mundo seria melhor se os problemas fossem resolvidos assim como o meu foi. Imagino um delegado de polícia dizendo aos pais de um bandido:

-- O seu filho é suspeito de assaltar um jovem a mão armada!

-- Filho, não acredito, você está maluco? Senhor -- diz o pai, voltando-se para o delegado -- pode ter certeza que isto não vai ocorrer mais. Ou então Fulano -- voltando-se para o filho -- você vai apanhar de correia!

-- Não pai, correia não!

E pronto, o problema acabasse. Não seria tão mais simples? Como não é assim que as coisas funcionam, e dor de garganta não resolve o problema por muito tempo, o jeito é prestar mais atenção aonde se joga o milho. Ou ser, de fato, um Van Damme.

Tocando neste assunto...

Nas últimas férias, passamos alguns dias num hotel do interior do estado do Rio, localizado numa área bem afastada da cidade. Ao chegar lá, logo percebemos que havia uma excursão de senhores e senhoras no hotel, algo como uma programação focada na terceira idade. O hotel promoveu, numa data noite, um bingo (claro, seria sucesso garantido). Como não se tinha muita coisa para fazer por lá naquela noite além do bingo, minha e esposa e eu resolvemos atender ao evento.

Eu, que nunca ganhei nada em bingo, ganhei os três primeiros prêmios. A minha filha achava o máximo toda vez que eu gritava "Bingo!". Como era a primeira vez que ela presenciava um, ela chegou a achar que a brincadeira era esta mesma: todo mundo reunido vendo o pai dela gritar bingo e levar o prêmio. Resolvi deixar para lá e desistimos do bingo, pois senti que eu ia estragar a noite daquelas senhoras.

Desde aquele incidente com o Rodnei, eu nunca mais tinha voltado a jogar bingo. Acho que naquela noite foi sorte acumulada.

O mundo era perfeito

Quando eu era criança, eu achava que o mundo era perfeito. Não que eu tivesse nascido em berço de ouro, muito pelo contrário. E nem que eu t...